15 maio 2019

Atravessemos juntos!


Quando iniciei os estudos na graduação em comunicação na Universidade Federal de Pernambuco, eu não fazia a menor ideia de que, no futuro, iria dedicar grande parte das minhas horas de trabalho à educação. Quem fez a conexão entre comunicação e educação que iluminou as minhas ideias foi um professor que, no 4º ou no 5º período do curso, lançou a pergunta: sabiam que vocês, como futuros comunicadores que serão, podem contribuir muito para transformar a educação? A partir daquele momento, todos os meus passos no curso buscaram conectar, de alguma forma, essas duas áreas. Essa busca por combinar saberes continua até hoje.

O desejo de conectar saberes motivou, em mim, a vontade de criar projetos que contribuíssem, de alguma forma, para a aprendizagem. Não porque eu acreditava que a educação era ruim, mas porque sabia que podia melhorar. Não demorou muito até perceber que, antes de conectar saberes, era necessário conectar pessoas. E, para conectar pessoas, era necessário conversar com elas, entender seus contextos e escutar o que elas tinham para dizer. Era preciso construir relacionamentos. E foi assim que me aproximei de professores de diferentes áreas e níveis, por meio de projetos e de redes de convivência, entre elas, a rede Professores transformadores, berço dos textos publicados no livro Professores em travessia pela educação.


Em 14 anos de projetos dedicados à educação, atravessei diversos caminhos. Organizei eventos, produzi conteúdos para diferentes mídias, editei livros e desenhei experiências de formação sempre em parceria com professores e, na grande maioria da vezes, para professores. Nunca fiz nada sozinha, sempre caminhei com eles. Essas travessias me trouxeram a grande oportunidade de escutar o que os professores tinham - e ainda têm - para dizer sobre o dia a dia de uma profissão tão importante e, ao mesmo tempo, tão desvalorizada no país.


Ouvi e ouço muitas angústias, mas se engana quem acredita que só há isso para ouvir. Há também muitas histórias felizes e emocionantes. Diversas travessias bem-sucedidas, que merecem ser registradas e iluminadas para que toda a sociedade possa conhecê-las. Há situações curiosas e muito trabalho criativo sendo desenvolvido de norte a sul do país, que não ganha tanto destaque diante das manchetes que insistem em ressaltar tragédias e violência. Seria tão bom se houvesse ao menos um equilíbrio nesses destaques. Como comunicadora que acompanha projetos desenvolvidos por professores há muitos anos, posso garantir que temos condições de equilibrar essas manchetes e começar dando visibilidade às experiências que algum professor pode estar desenvolvendo bem perto de nós, na escola do bairro, apostando em fazer diferente, sem fórmulas mágicas como tão bem abordado no texto Fórmula mágica para uma prática pedagógica dos sonhos, de Fernanda Câmpera Clímaco, que você vai ler no livro.

Mas, destacar travessias bem-sucedidas não significa minimizar a importância do compartilhamento das angústias da profissão. O exercício da empatia na relação com professores é primordial e ele começa a partir de uma escuta atenta. Aliás, empatia é um tema recorrente nesta obra, abordado em diferentes cenários, como no texto Educar para a empatia, de Elke Beatriz Felix Pena. Ainda faltam espaços que estimulem os professores a falar sobre seus problemas, suas carências e suas aflições. Eles querem falar sobre isso. Lembro que uma das atividade de um dos projetos de formação do qual faço parte com alguns colegas educadores dizia respeito à produção de memes. Fomos surpreendidos ao perceber que a maioria dos memes criados estava relacionada aos dissabores da profissão. Pela falta de outro momento, os professores aprendizes resolveram se expressar por meio da atividade. É por isso que espaços como a rede Professores transformadores - e, consequentemente, esta obra - são tão relevantes.

Uma das tarefas mais importantes que temos em relação à educação talvez seja justamente a criação desses espaços de interação com foco na fala e na escuta, não só para quem media como também para quem aprende, lembrando que é a partir das interações e do diálogo sobre os problemas que passamos a entender melhor o outro e que chegamos a soluções mais adequadas. Não há como haver propostas sem o entendimento das dores de cada um. Um bom exemplo disso pode ser visto já no início da obra, no texto Por uma educação contra o machismo, em que Cristiene Adriana da Silva Carvalho constrói um espaço de escuta sobre violência contra a mulher em sua instituição. Logo mais adiante, o texto O diálogo como força, de Elke Beatriz Felix Pena, chega para reforçar a importância de participar desses ambientes de fala e escuta, sejam eles presenciais ou virtuais, criados por nós ou não. A responsabilidade de construção desses espaços não precisa ser apenas das escolas ou do governo; ela também pode ser minha e sua.

Implementar uma rede de pessoas do ponto de vista das ferramentas é relativamente fácil hoje em dia. No tempo de alguns cliques é possível não só criar um website como um grupo que poderá reunir centenas de pessoas em torno de um tema. O mais difícil de uma iniciativa assim é atrair as pessoas e manter a rede ativa, crescendo organicamente e se reinventando a partir da construção de novos espaços e novos formatos dentro da própria rede, a exemplo deste livro, que materializa anos de produção constante dos professores autores a partir de uma curadoria cuidadosa de sua organizadora, Elodia Honse Lebourg.

Posso encerrar este meu texto dizendo que a rede Professores transformadores tem alcançado, com distinção, seu objetivo de construção de espaços de fala e escuta, ao reunir dezenas de professores escritores que compartilham suas experiências para milhares de professores leitores que amplificam a voz uns dos outros, nas mais variadas experiências e combinando momentos presenciais e virtuais. Isso nos mostra que ninguém precisa fazer sua travessia sozinho.




Karla Vidal 
Editora da Pipa Comunicação

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